
Em 1978, o diretor britânico Ridley Scott surpreendeu o mundo com o seu Alien. E a ficção científica nunca mais foi a mesma…
Uma cuidadosa escolha de elenco, equipe de produção e, principalmente, uma arriscada aposta em um obscuro artista suiço chamado HR Giger literalmente pariram uma obra que marcou um antes e um depois no cinema a partir de um roteiro bastante convencional que quase foi comprado por Roger Corman, o lendário diretor e produtor de filmes B de baixíssimo orçamento.
O roteiro, inicialmente chamado “Star Beast”, uma coleção de clichês de filmes de mostro que desenvolvia ideias de uma produção semiamadora de faculdade (Dark Star), rodou por dezenas de produtoras de Hollywood sendo sistematicamente rejeitado até alguém passar os olhos pela descrição de uma cena que prometia algo realmente original. Essa é a famosa cena que tornou Alien um filme marcante e inesquecível: a entrada (ou saída) do Chest Buster, o alienígena que nasce de forma brutal explodindo o peito de um hospedeiro. Com esse embrião (rá!), o roteiro foi comprado e reescrito.
O estrondoso sucesso de Star Wars, a colorida aventura de fantasia no espaço com seus cavaleiros com espadas brilhantes salvando princesas em apuros criou uma onda entre os estúdios tentando faturar em cima desse gênero até então relegado às matinês, com histórias bastante repetitivas de alienígenas que vinham à Terra para escravizar os homens e roubar as mulheres mas sempre eram vencidos no fim pela indomável convicção e coragem de um Johny qualquer (ou uma gripe). Ainda que o gênero de ficção científica tenha joias da qualidade de The day the Earth Still Stood (que alertava para a loucura de uma corrida armamentista descontrolada) ou The Forbidden Planet (onde se analisa o perigo de um Id descontrolado com infinitos recursos à sua disposição, penetrando (!!!) os domínios do subconsciente em um roteiro brilhante).
Alien, então se revelava mais uma análise dos maiores medos do indivíduo: a infecção, a violação, um monstro que se mantem oculto e só se revela aos poucos negando-se a tomar forma. Um monstro do inconsciente.
A primeira metade de Alien provavelmente é a melhor apresentação de história de monstro. Ainda hoje, assisto uma e outra vez sentindo a mesa sensação de absoluta estranheza e de estar ante um abismo no tempo e no espaço, absolutamente além da compreensão humana. Um lugar que parece se debruçar sobre os diminutos seres que ousam penetrar um território que é percebido com estranheza, mistério, ameaça. Ainda que o alien seja um grande personagem e mereça toda a admiração dos fãs ao longo das décadas (trinta anos já!) eu não deixo de sentir que eles são apenas uma das ameaças que se escondiam naquela nave acidentada.
Muito do impacto dessa introdução se deve à escolha de Ridley Scott de separar a concepção visual do filme entre dois artistas. O primeiro, Ron Cobb, um artista conceitual da NASA ia desenvolver todos os trajes, naves e equipamentos tanto dos humanos como dos alienígenas, mas Ridley Scott, na sua primeira empreitada em Hollywood depois de um filme de época semi-alternativo (The Duelists), não gostou do resultado. A criatura desenvolvida pelo artista não parecia nada assustadora, mais um bicho animatrônico estranho. Indo e vindo entre escolhas para produção, ele foi apresentado às perturbadoras ilustrações de um artista suíço excêntrico: HR Giger. Giger estava chamando a atenção entre os círculos de arte moderna com um conceito muito inovador: as figuras biomecânicas que mostravam a confluência de carne e metal da
qual surgiam grotescas criaturas como se prenunciassem uma futura evolução do humano tragado pelas máquinas que povoavam o nosso mundo. A concepção constrangedoramente biológica, perturbadoramente erótica e definitivamente alienígena, inpressionou Ridley Scott que decidiu que Giger ficaria a cargo da concepção visual dos elementos alienígenas. O resultado, todos conhecemos: a nave acidentada, os corredores que pareciam as entranhas de um leviatã espacial, a sala de comando com o Space Jockey, um astronauta morto à muitas eras. Esse piloto nos dá uma dimensão da infinita solidão do espaço, passada a surpresa inicial com a descoberta, não podemos deixar de sentir simpatia por esse desconhecido. E ainda espera um mistério, não? O que terá matado esse navegante do espaço? Porque seus semelhantes nunca foram busca-lo? Será ele o representante de uma raça morta? Será que a humanidade finalmente encontrou evidências de outra espécie no Universo apenas para
descobrir que está sozinha?
Quando você olha para o abismo… o abismo olha para você.
Nas profundezas do tempo, ainda espreitam perigos insuspeitados.
Quando Alien acaba, estamos tão envolvidos com o destino da tripulação condenada do Nostromo que deixamos de lado todas as perguntas que são colocadas no início do filme. Sobreviver é o bastante.
Para o público, o mostro espacial se tornou incrivelmente sedutor. Da segurança de sua poltrona, as multidões enchiam os cinemas para ver a tenente Ripley correr pela galáxia enfrentando uma e outra vez versões do monstro cada vez mais evoluídas, se adaptando a cada ambiente onde o ser humano estivesse e ameaçando se tornar a causa da extinção da humanidade. Isso se a humanidade não fizesse o trabalho para eles antes, claro.
Agora, no longínquo ano de 2012, finalmente teremos as respostas para os mistérios levantados no primeiro filme.
A busca por nossas origens pode nos levar a nossa extinção… mas isso fica para a segunda parte…
Prometheus (2012) – O legado de Alien, 1ª parteNenhum comentário ainda.
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