RPG na era do e-book

Papel e tinta sempre foram elementos vitais na confecção de um livro. No entanto, recentemente o Brasil entrou no mercado de leitores de e-book, com a disponibilização do modelo Kindle, da Amazon, para importação direta pelo consumidor. Finalmente há uma mídia viável sem aqueles elementos vitais. Essa novidade, e esse é o ponto relevante, pode ter grande repercussão no RPG nacional, se aproveitada!

O aparelho

Um leitor de e-book é um aparelho eletrônico capaz de exibir livros numa tela especial que não contém iluminação própria. Essa tecnologia busca simular o papel e, assim, tornar a leitura de um arquivo digital o mais próxima possível do conforto que é num livro físico. Além de formatos próprios de cada empresa, esses leitores costumam aceitar arquivos pdf ou, até, documentos do Microsoft Word.

Na atualidade nos é mais conhecido o Kindle, da Amazon. Isso porque essa gigante do mercado virtual começou a exportar seu produto-chefe para nosso país, já calculando todo o custo, inclusive de impostos, para o termos em mãos. Dentre os diversos modelos, sua principal habilidade é a possibilidade de aquisição dos livros com rapidez, por meio de acesso à Internet por rede de celular.

Em paralelo, a Sony disponibiliza seus modelos PRS. Este que vos fala possui um PRS-600. Este modelo, no caso, não tem acesso remoto à Internet, mas admite arquivos do Microsoft Word. Um modelo mais novo recebeu a mesma funcionalidade do Kindle e pode acessar livros ou jornais por rede de telefonia celular.

Outros modelos existem. Até mesmo alguns com telas coloridas.

O livro

Os aparelhos permitem acesso a um arquivo digital e buscam simular a experiência de um livro. Há divisão em páginas, índice, ferramentas para anotações ou marcações. O modelo da Sony tem tela sensível ao toque, o que possibilita virar a página com movimento de dedo, e grifo ou anotações a mão em cima do arquivo digital. O Kindle tem um teclado próprio para esse tipo de função.

Podem ser adquiridos em lojas virtuais. A Amazon e a Sony possuem suas lojas que fornecem material para seus produtos diretamente. Esse mercado tende a crescer ao longo do tempo e as mais novas obras estão sendo disponibilizadas tanto na mídia física como na virtual.

Apenas a título de exemplo muitas obras de Dungeons & Dragons já estão acessíveis aos detentores desses aparelhos. A loja da Sony possui a coleção completa do elfo negro Drizzt; e a Wizards prometeu pelo menos 54 romances de seus universos na loja virtual da Amazon.

Além disso, muitas obras literárias já caíram em domínio público. O que isso significa??? Textos clássicos, de autores que faleceram há longa data, não são mais protegidos pelas normas de direitos autorais, possibilitando seu acesso gratuito a todos.

Mas o que isso tem com o RPG?

O mercado do RPG é naturalmente mais restrito que o da literatura em geral. O público é menor, ou mais especializado, mesmo se em comparação com o público de obras de fantasia. É natural imaginar que boa parte dos jogadores de Dungeons & Dragons teve oportunidade de ler Tolkien e seu “Senhor dos Anéis”. Mas o caminho inverso não é verdade… nem todo leitor de Tolkien já se aventurou numa mesa de D&D… ou, quiçá, de RPG. Assim, todo o trabalho das editoras de conteúdo ao RPG deve levar isso em consideração. As vendas serão naturalmente menores que o comum.

Além disso, muitas obras possuem como elemento de suma relevância a arte visual. O papel é especial, pelo menos. Se for colorida, fotolitos, tintas e todo o custo disso decorrente. Logo, o custo de cada obra é maior que de um livro comum.

O e-book pode trabalhar nesses dois planos.

O mercado é mais restrito, mas a Internet é acessível a todos. A divulgação do material é simplificada e global. Mesmo o único jogador de uma pequeníssima cidade no interior do país pode adquirir seu exemplar digital sem precisar se deslocar até a livraria especializada em RPG mais próxima (que pode ser muito distante) ou sem pagar uma taxa de frete elevada por conta de sua localidade.

O número de exemplares é ilimitado. Jamais haverá um e-book esgotado na editora! Basta se realizar um novo download, sem qualquer custo para o detentor da obra. Não há que se trabalhar em número mínimo de exemplares para uma segunda ou terceira impressões. Se o livro for interessante para apenas um usuário a mais que o planejado de início o download será possível. E a manutenção dessa obra nos acervos da editora, ou da livraria, é de custo baixíssimo. Pequenas frações no disco rígido de seu servidor sustentam muitas e muitas obras.

Somado a isso e o segundo plano acima apontado, o e-book promete uma redução de custos. Não há mais necessidade de impressão. Logo, afasta-se da cadeia produtiva todo o custo de papel e tinta e o custo e a parcela de lucro destinada à impressão. Lógico que o livro não sairá por preço absurdamente inferior. Entretanto, alguma redução no custo da obra é possível, pois apenas será necessário pagar ao autor e à editora… ou, só ao autor, que possui meios para produzir uma obra digital de qualidade sem depender de intermediários.

O resultado permitiria apontar duas ótimas possibilidades para o mercado de RPG no Brasil. Primeiro, mais autores podem colaborar com suas obras e alcançar sua fatia das mesas de RPG (ou de fantasia literária). Democratiza-se a literatura fantástica, que poderá crescer sem se preocupar com os mesmos índices de retorno da mídia física. E, segundo, obras famosas, especialmente os romances, poderiam ser traduzidos por um custo inferior e, portanto, com uma maior probabilidade de retorno. Quem sabe teremos mais romances de D&D acessíveis ao público nacional, em português, quando os leitores de e-book se popularizarem.

Qual a pegadinha?

Trabalhar com Internet e propriedade intelectual é algo muitas vezes incompatível. O confronto com a pirataria é o mais relevante problema do mundo virtual, para o qual inexiste solução simples. As mesmas vantagens que um arquivo digital proporciona, como acima já foi apontado, podem servir para o mal, porque é sempre mais simples quebrar uma proteção do que instituí-la.

Diante disso, é inevitável que toda obra digitalizada corre iminente risco de ser pirateada. Acesso livre, irrestrito e gratuito acabaria por conquistar a população virtual.

Todavia, quem sabe explorar tem meios de educar seu público consumidor a respeitar a propriedade alheia. Exemplo disso é marcante. O ITunes, loja virtual da Apple para arquivos digitais de música, é há quase dois anos o maior revendedor musical dos EUA. Mesmo após a anarquia das trocas de arquivos musicais essa iniciativa conseguiu quebrar recordes e conquistar a preferência do mercado norte-americano.

Usando o mesmo conceito, porém aplicando-o mais cedo, antes de o universo virtual ser dominado pela falta de propriedade, o e-book poderia ter potencial enorme. Um livro de qualidade, mais barato, com entrega imediata pode ser a solução daquele que já compraria um exemplar, mas em papel. Economiza-se trabalho, árvores e espaço em estantes. O benefício é evidente e basta capitalizar em cima disso.

Enfim…

Isso tudo é um simples palpite de um leitor de obras de literatura fantástica e um jogador de RPG. Somente os diretamente envolvidos no mundo RPGístico podem fornecer mais detalhes, como a proporção no preço final que decorre da mídia física ou a viabilidade de tradução digital apenas de uma obra famosa internacional.

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Publicado em: 21 set 2011 por: | Este post tem 0 comentário.
Categorias: Literatura

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